Amal Graafstra: um passo além de Darwin

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Peça à Amal Graafstra que lhe entregue seu cartão de visitas e ele estenderá a mão direita, na esperança de que você tenha um dispositivo com tecnologia NFC, capaz de captar o sinal emitido pelo chip instalado sob sua pele, que envia as informações de contato direto para a tela do celular. Parece mágica, mas é apenas uma das funções cotidianas a que o norte-americano, pioneiro no implante de biochips em humanos, se habituou desde 2005, quando colocou um chip dentro da mão esquerda pela primeira vez.

Graafstra então configurou a peça, de tamanho semelhante a um grão de arroz, para abrir automaticamente a fechadura de casa. Mostrou a novidade a um amigo, que postou o que viu na internet e a notícia se espalhou. A partir daí, o que era hobby acabou virando negócio e Graafstra se tornou uma espécie de guru dos chips implantáveis. Ele vende as peças por meio da Dangerous Things, start up que também testa novas aplicações e articula a distribuição do produto em outros países, inclusive no Brasil (veja a entrevista com o brasileiro que implantou o chip).

“O chip da mão esquerda é o mesmo desde o início e o da direita já troquei algumas vezes, é como se fosse a mão de teste de projetos novos”, diz ele. Na entrevista a seguir, Graafstra fala de sua experiência de quase dez anos usando os chips implantáveis, explica como a humanidade pode estar vivendo “a próxima fase da evolução, além da teoria de Darwin” e dá exemplos de divertidas aplicações já desenvolvidas para interagir com os chips.

Leia mais: Conheça primeiro brasileiro a implantar biochip no corpo

Já faz quase dez anos que você usa os biochips. Como você se sente sobre eles com o passar dos anos?
Amal Graafstra: Acho muito interessante, porque quando você usa algo assim pela primeira vez, é meio mágico e tudo é novo. E isto se torna integrado ao seu corpo com o tempo, a um nível que simplesmente se torna parte do que você é, da sua identidade. Você passa a acreditar que o chip é como se fosse outra parte, como seus rins, por exemplo. Eles têm uma função, você usa diariamente e não pensa sobre eles. É uma característica da tecnologia, ela é destinada a acabar com a necessidade de pensar onde você deixou suas chaves ou como fazer login no computador. Parece muito simples implantar um chip RFID, mas o impacto em nível fundamental é realmente muito grande.

Photos   Amal Graafstra   Technologist  Author   Double RFID Implantee

É seguro usar o biochip? Você precisa se consultar com um médico periodicamente?
Amal Graafstra: Não falo com médicos hoje em dia, pois o médico que me atendeu quando coloquei o implante pela primeira vez já conhecia bem a tecnologia. É o mesmo tipo de peça que animais, cachorros e gatos têm usado há décadas. A única diferença é o tipo de chip dentro da peça. Mas, em questões de saúde, é uma tecnologia comprovada, não há necessidade para fazer consultas periódicas com o médico.

Como funciona a mão direita e a esquerda?
Amal Graafstra: No geral, a tecnologia é RFID, mas esta tecnologia é muito ampla. Há muitas frequências, protocolos, estrutura de dados que permitem um espaço amplo de experiência. Por isso, a mão esquerda tem um chip de baixa frequência de 125 kHz chamado EM4102. Este chip é muito comum em campos de frequências baixas, o que significa que você pode arrumar equipamentos receptores bem baratos, pode implementar sistemas de controle de acesso e outras coisas.
Na mão direita, agora estou com um xNT, que é compatível com a tecnologia NFC. É um chip que a gente conseguiu financiamento coletivo no Indiegogo e ele é interessante porque tem alta frequência, o que significa que você pode transferir dados de forma mais rápida e também permite armazená-los. Quando você vai implantar algo em seu corpo, é importante que a tecnologia seja compatível com o maior número de padrões possível, para a peça não fica obsoleta. Não faz sentido implantar um chip e, depois de um ano, precisar de uma atualização. E o padrão NFC está sendo cada vez mais aceito globalmente e já funciona com alguns modelos de telefones Windows, Android e iPhone.

Qual a capacidade de armazenamento de dados no chip da sua mão direita? Ele pode guardar 1 gigabyte, 2 gigabytes? Isso é possível?
Amal Graafstra: Não! (Risos) Na verdade, o chip roda uma quantidade bem pequena de dados, porque a função dele não é armazenar arquivos pesados, mas sim guardar arquivos binários. Por exemplo, se você quiser gravar uma url ou um cartão de visitas, é possível enviar estas informações para um celular. Meu cartão de visitas está na mão direita agora e tenho um celular com padrão NFC, então é só aproximar e consigo ver detalhes de contato no telefone.

Você poderia dar mais exemplos de outras coisas que você já viu sendo configuradas com os chips?
Amal Graafstra: Tem alguns casos bem interessantes. Com a possibilidade de armazenar dados, uma pessoa fez uma pequena animação, um tipo de gif, e criou uma espécie de tatuagem digital que ele pode aproximar de celulares e mostrar a arte na tela. Tem outra cliente que é produtora de games, então ela resolveu distribuir cópias gratuitas de um game. Você precisa aproximar o celular da mão dela para conseguir o game. Outro cliente é fã de geocaching (atividade que consiste em esconder e encontrar ‘tesouros’ com ajuda do GPS) e ele colocou uma coordenada no chip da mão dele. Então a pessoa precisa encontrá-lo e escanear o chip. Várias aplicações bem interessantes estão surgindo.

Na sua palestra no TED, você mostra o biochip como uma nova forma de evolução da espécie humana. Você pode explicar as razões para acreditar nesta ideia?
Amal Graafstra: Há duas coisas importantes quando falamos em evolução. Uma é a mutação randômica, nasce um bebê com um DNA modificado e geralmente isso está relacionado a algum tipo de defeito, algo que não vai ser determinante para a sobrevivência daquela pessoa. Por outro lado, temos a seleção natural. Vamos, por exemplo, dizer que a mutação é de um coração com defeito. Normalmente, este bebê iria morrer, mas somos capazes de arrumar uma falha no coração com cirurgia agora, mas a informação genética se mantém e pode ser transmitida. Se a gente conseguir arrumar o problema do coração no nível genético é possível solucionar a origem do problema. Com o biohacking, a mutação randômica é deixada de lado, porque a gente pode fazer escolhas específicas e guiar algumas mudanças do jeito que gostaríamos que elas fossem. Por isso digo que é um novo tipo de evolução humana, porque escolhemos as mudanças que queremos integrar. Assim, a gente acaba ajudando o processo de seleção em níveis sociais e morais.

Isso significa dizer que estamos indo além da teoria de Darwin?
Amal Graafstra: Sim, seria a próxima fase da evolução.

Existem pessoas que, por motivações religiosas, são contrárias aos biochips e associam esta tecnologia a uma representação do mal. Como você reage a isto?Amal Graafstra: Recebo mensagens quase sempre de pessoas assim e, antes, quando era possível, tentava conversar. Muitas vezes, as pessoas têm preocupações sobre a tecnologia que, no fundo, não fazem parte da realidade. Por exemplo: muita gente acredita que existe uma capacidade de rastrear o chip por GPS, mas não funciona assim. Não culpo as pessoas por isso porque, em qualquer filme de Hollywood com um chip, parece que o personagem está marcado, sendo rastreado.
A realidade é que a tecnologia RFID é muito poderosa e pode ser usada de maneira ruim. Uma empresa de roupas, por exemplo, estava costurando chips em tecidos, de forma que eles ficavam escondidos, para saber quando seus clientes estavam voltando à loja usando as roupas que tinham comprado. Isso aconteceu no fim dos anos de 1990, aí um grupo de pessoas protestou e a loja parou de costurar os chips. Claro que existe uma preocupação real sobre os riscos de segurança e privacidade associados à tecnologia RFID, mas a maioria das críticas hoje em dia são infundadas.

Alguma ideia de quantas pessoas estão usando os biochips hoje no mundo?
Amal Graafstra: Acredito que de 3 a 4 mil pessoas usam o xNT e há 6 ou 7 mil pessoas de modo geral com a peça, considerando todos os tipos de chip, talvez 8 mil. Pode ser até 10 mil se você contar os VeriChips, implante de um empreendimento comercial aqui nos Estados Unidos que vendia chips instalados no braço com a função de criar fichas médicas digitais.

Você já vendeu bastante para o Brasil?
Amal Graafstra: Acredito que vendemos uns 20 ou 30 para o Brasil até agora e estamos trabalhando com algumas pessoas para distribuir o produto no país. Os maiores obstáculos até o momento são o frete e a alfândega, porque as taxas de importação tornam tudo mais caro. Então faz mais sentido trabalhar com centros de distribuição, para tentar deixar mais barato.

Você ficou rico vendendo estes chips?
Amal Graafstra: (Risos) Ainda estou trabalhando na minha garagem, então a resposta é não! Mas estamos aumentando as vendas e desenvolvendo mais produtos, estamos crescendo pouco a pouco e é muito legal ver isso. Temos dois engenheiros elétricos trabalhando em diferentes projetos, um gerente de desenvolvimento de negócios e um gestor de comunidades. Mas a gente ainda se considera uma start up em fase inicial de operações.